O Brasil tem vivido os idos de março. Tentativa de morte contra o presidente, rompimento de barragem com 360 desaparecidos e perdas ambientais incalculáveis, incêndio devorador de jovens inocentes. Os brasileiros estão sofridos, injustiçadamente sofridos. Surge agora uma nova tragédia para a coleção de tormentos por que devemos passar. Morre o queridíssimo antes do respeitadíssimo jornalista Ricardo Boechat, âncora da Rede Bandeirantes, âncora, sim, da verdade. Era ele que um imenso público ouvia e era nele que a imprensa, seus próprios colegas, e uma massa de espectadores e ouvintes, acreditava. O ímpeto inútil de o retermos na terra nos move a uma tentativa frívola de não o deixarmos ir.

Todos nós morremos um pouco com Ricardo Boechat. Boechat era desses que a história conta como amantíssimos, mas o destino, sempre insondável, os ceifa cedo. Mistérios para nós … Este homem fantástico reunia, em uma presença emblematicamente simpática e sedutora, uma franqueza que encantava, concebeu um universo de lemas e dilemas que cativou todo o Brasil pela sua voz envolvente, por sua comunicação sincera, objetiva, lúcida. Ricardo era tudo que um jornalista profissional sonha em ser. Onde estará agora aquele que clamava por sua “doce Veruska”, aquela que lhe proporcionou a imensa alegria de, já maduro, ganhar duas lindas crianças, que o esperavam para almoçar no dia fatídico.

Boechat deixou lembranças, melhor dizendo, nos deixou um legado precioso de como ser brasileiro, de como compreender os fenômenos sócio-políticos e de como nos livrarmos dos adversos, dos injuriosos à nação, dos perniciosos, até dos letais. Sua aparição diária no rádio, na televisão ou nos jornais era cumprir o seu dever de casa – a casa como sua consciência – e seu dever como brasileiro.

A vida de cidadão, de pai e de marido de Boechat se confundia com sua irrepreensível carreira de jornalista, como foi em mais de uma dezena de redações. De todas elas sai o Boechat proclamado por colegas, amigos, leitores, espectadores e ouvintes como o às da verdade, da perspicácia nas análises, quase um talismã que fareja o interesse menor e o reprimia ostensivamente. Em síntese, Boechat foi o Barbosa Lima Sobrinho de nossa geração, com um espírito mais solto, aquele que valorizou e elevou a imprensa em patamar importante e indispensável de opinião. Boechat, com sua simplicidade não apenas pontificou, mas foi o regente de um conjunto de comunicadores de nossos últimos tempos de jornalismo radio-televisado. O patrimônio que ostentava era o da ética. Um comentário de Boechat era como o solo de uma clarineta que soava como diretriz para um concerto de projetos, de opiniões e de ações que estavam a reclamar uma regência senão olímpica, corajosa.

Sua última viagem impediu que ele repetisse Barbosa Lima, que, enveredado na política, sempre mostrou desassombro, patriotismo, audácia. A Boechat faltou tempo para ir além, mas é um nome que se eternizará como paradigma do bom cidadão, do jornalista brilhante, do pai amoroso, do brasileiro leal. Um ícone de nosso tempo.


José Maria Couto Moreira é advogado | Originalmente publicado no Diário do Poder.

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