“Ninguém vive no Estado ou na União. As pessoas vivem no município”. A frase é do político de carreira longeva, André Franco Montoro, que viveu no século passado. O paulistano da gema, entre 1947 e 1998, foi tudo que se pode ser na carreira política eletiva, com exceção de Presidente da República. Vereador, deputado estadual e federal, governador e senador. Tudo por São Paulo, capital e estado, óbvio.

Montoro foi um dos idealizadores do PSDB, mas esteve no MDB, quando ainda não havia ‘p’ precedendo a sigla de agremiação política. Iniciou pelo PDC – Partido Democrata Cristão, fundado em 1945. O autor da frase emblemática que abre o texto iniciou sua trajetória política ao lado do folclórico Jânio Quadros.


Os milionários

Por escrever Jânio (chega de história da política brasileira – para saber mais, dá um google aí), na segunda-feira, 2, ele foi lembrado na cidade de São Paulo. Tudo por causa do atual prefeito da terceira maior cidade do mundo, com 12 milhões de habitantes. O empresário, jornalista, publicitário e agora prefeito, João Dória, em seu primeiro dia de trabalho, empoderou-se na indumentária de gari e varreu a Avenida 9 de Julho, uma das artérias da paulicéia desvairada (deixei o acento porque assentava bem ao português padrão de 95 anos passados, quando Mário lançou seu maravilhoso livro de poemas).

[...]

Eu insulto as aristocracias cautelosas! 

Os barões lampiões! 

Os condes Joões!

[...]

O poema-acinte, “Ode ao Burguês”, de Mário de Andrade, um libelo do modernismo, foi declamado à plateia da lendária Semana de Arte Moderna de 1922. O insulto, claro e evidente, foi para os ouvintes de outrora. Porém, embora, toda hora e não demora, pode servir para agora. A ação varreu as demais pautas da media e muitos dirão que foi um golpe de marketing com requintes de populismo de Dória. Daora, meu! Diria um popular paulistano.

O magnata da comunicação, o burguês da vez, que nega ser um político, varreu a Praça 14 Bis. Botou para voar da cama seus 22 secretários (Teresina tem 29, mais abaixo a gente toca neste assunto), que o ajudaram no lançamento do Programa São Paulo Cidade Linda, às 6h da matina. O logo, simples e eficaz, é um coração vermelho (pelo menos isso) à esquerda (sem piadas, por favor), com SP, em branco, dentro. À direita do miocárdio simbólico as palavras CIDADE (em vermelho) e LINDA (em preto). Partindo de um tucano, é a receita perfeita para quaisquer esquerdistas diagnosticarem arritmia. 

Há quem diga e cante que “não existe amor em São Paulo”. Se depender de João, o Dória, que tal qual o Rei da Frígia, Midas, tudo o que toca vira ouro, paulista vai sentir o fragor de seu amor, de seu coração. Frígida? Não! Na Pauliceia tem amor, sim senhor, sim senhora!

“Varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já está cansado / de sofrer dessa maneira” – no jingle de Quadros ao concorrer à Presidência, tangeu nostálgico o recado claro de combate à corrupção, que já era endêmica. Algum dia não foi? Joões e Joanas, deixemos isso à Lava Jato.

Dória encerrou dizendo que vai estar nas ruas, avenidas, canteiros, monumentos, largos, estreitos e becos, montando praça com seu figurino de lixeiro, pelo menos uma vez por semana. E mandou anotar. Ok. Está anotado. É pra cobrar? Enfim, saiu dirigindo seu caminhão de lixo, ricamente, como um bom burguês nunca o fez. Um luxo!

Das 26 capitais, além de São Paulo, os próceres comandam as prefeituras em Belo Horizonte e Porto Velho. Alexandre Kalil (PHS), o homem que predisse que a era coxinha versus mortadela passou: “Agora é quibe!”.  E Dr. Hildon (PSDB), que afirmou em sua posse que não permitirá nenhuma espécie de corrupção. Nenhuma mesmo? Ricaços, não negam a opulência conquistada. Nababos são. Babam os eleitores, de pires na mão. Das urnas ornadas, refulgiram seus mandatos. São ricos, não negam e não devem a ninguém.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, de cada 5 prefeitos, 1 declara possuir patrimônio superior a R$ 1 milhão. No ranking dos milionários, Dória está em terceiro, com R$ 179,7 milhões. O primeiro é Vitório Medioli, de Betim (PHS/MG), que declarou R$ 352,5 milhões à Justiça Eleitoral. O segundo lugar é de Antídio Lunelli, com R$ 280,5 milhões, de Jaraguá do Sul (PMDB/SC). Francis Maris, do PSDB de Cáceres (MT), é o quarto, com R$ 60,1 milhões. Um pouco atrás, com R$ 55,5 milhões, Toni Mafini (PSDB), é o prefeito de Novo Mundo (MT).

Ao todo, 11 capitais têm prefeitos milionários. Além de Dória, Kalil e Hildon, em SP, MG e RO, apenas Zenaldo Coutinho (PSDB), Belém (PA); Marquinhos Trad (PSD), Campo Grande (MT); Emanuel Pinheiro (PMDB), Cuiabá (MS); Íris Rezende (PMDB), Goiânia (GO); Luciano Cartaxo (PSD), João Pessoa (PB); Carlos Eduardo (PDT), Natal (RN); Carlos Amastha (PSB), Palmas (TO); e ACM Neto (DEM), Salvador (BA).


Com o poder da fé

No Rio, o não milionário Crivella cravou seu primeiro dia útil doando sangue. Aos planos de saúde, prometeu acerto de contas, como se hematófagos fossem. Segundo o prefeito, devem mais de R$ 500 milhões. Entretanto, demonstrou compaixão: “Se eles não podem pagar tudo, que nos ajudem em consultas com especialistas, exames e cirurgias de baixa complexidade”.

“Marcelino Pão e Vinho”, o filme espanhol que assisti no velho Cine Rex (na capital mafrense), trouxe-me a lembrança do protagonista, oferecendo o fruto do trigo transformado em massa fermentada e cozida a Jesus. Além de um copo do suco da videira. Do gesto, nasceu um diálogo e uma frutífera amizade na película. Na vida real, haja simbolismo ao evangélico Marcelo carioca.

Neste janeiro, no Rio de São Sebastião, os munícipes estão flechados por salários atrasados, saúde na unidade de tratamento intensivo e economia crivada na capital e na velha Guanabara. Crivella, evangelizou a todos em seu discurso de posse: “É proibido gastar!”, pregou o bispo licenciado da Igreja Universal.

O prefeito, como um bom pastor, anunciou às suas ovelhas e eleitores em 20 de dezembro passado e cumpriu, ao empossar seus acólitos: reduziu as secretarias de 24 pela metade. Dos seus 12 discípulos empossados, somente 2 compareceram ao Hemorio para doar sangue. Marcelo vai exercitar mais uma vez sua compaixão com os apóstolos gestores ou serão crucificados? Credo!


Mulheres perderam espaço

No outro extremo do Brasil, uma mulher assumiu o comando da capital de Roraima, Boa Vista. A única. No caso de Teresa Surita (PMDB), reeleita, para mais um mandato. É penta! Pela quinta vez, em uma trajetória meteórica. Vem elegendo-se desde o ano 2000. É a única que conduz o poder executivo em capital. A turismóloga prometeu em sua fala, na solenidade de posse, que vai preparar a cidade para os próximos 20 anos aos eleitores macuxis.

2016 não foi um bom ano para a mulher na política. Não bastasse o impeachment de Dilma Rousseff, das 5.568 prefeituras em disputa, apenas 642 foram conquistadas pelo ex-sexo-frágil. Em 2012 foram 659, 11,84% do total. Em 2016, a redução ficou em 11.57%. Para ficar mais evidente, os homens prefeitos representam 88,43%. Sendo que as mulheres são a maioria dos eleitores em 2.963 municípios.

Na política, mesmo cada vez mais poderosas, as mulheres estão fragílimas. Somente duas prefeitas assumiram o poder em cidades com mais de 200 mil habitantes: Raquel Lyra, em Caruaru (PSDB/PE), e Paula Mascarenhas, em Pelotas (PSDB/RS).   


Peleja à flor da pele

A cor da pele revela outras facetas da disputa eleitoral neste país multicor. Nosso caldeirão de etnias misturadas ferve e apura resultados que não surpreendem, ainda.

3.906 prefeitos assumem-se brancos, o que representa 70,4%. Os pardos vêm com o segundo posto, 27% ou 1513 comandantes do executivo municipal. Já os negros, são apenas 93 ou 1,6%, segundo informa a Justiça Eleitoral. Amarelos, com origem asiática, são apenas 27, ou 0,4%. Índigenas, os moradores mais antigos da terra brasilis; na Pindorama são 6, meia dúzia, ou 0,1%.

A impressão que fica é que se fôssemos levar em conta o número de habitantes numa relação com a composição étnica, o resultado da representatividade dos eleitos teria inversões que mudariam as posições completamente.

A obra do sociólogo Gilberto Freyre, “Casa-grande&Senzala”, é fundamental para entender a formação da sociedade brasileira sob o aspecto da miscigenação, refletindo o patriarcalismo que vigora em nossa sociedade e parece intransponível. Aí você saca o porquê das mulheres serem a maioria dos eleitores, mas não conseguem nem empatar quando põem seus nomes à verdade das urnas eletrônicas.

Brancos caucasianos, especialmente portugueses; negros das várias nações que chegaram escravizadas do norte e noroeste africano; e os inúmeros grupos indígenas que aqui viviam, estimados em mais de 5 milhões, por volta do ano 1.500, quando o Brasil foi “descoberto”, espelham nossa composição étnico-cultural na obra de Freyre, diluindo conceitos e cristalizando preconceitos arraigados em nosso cotidiano.

Entre os 6 prefeitos indígenas, destaque a Isaac Pyânko (PMDB), que está no comando do município Marechal Thaumaturgo, na fronteira com o Peru. Situada na margem esquerda do Rio Juruá, só se chega na cidade de avião ou de barco. Segundo censo do IBGE, de 2014, pouco mais de 16 mil habitantes vivem no município, que sobrevive basicamente da agricultura de subsistência. Pyânko garante seu lugar na posteridade ao se tornar o primeiro prefeito eleito do Acre. Curiosamente, Isaac, que é do povo Ashaninka, é professor. Um índio, professor e prefeito - é raridade demais nestas terras das palmeiras.

Já assistiram ao filme “Desmundo”? Magnífica obra do diretor Alain Frenost, com roteiro adaptado de livro homônimo da escritora Ana Miranda. Exibe, romanceadamente, os primeiros passos da construção social tupiniquim. Ambientado em 1570, ajuda a compreender o contexto que reflete o que somos. O português arcaico falado na película é pouco compreensível, de forma que as legendas fazem-se necessárias. Neste período pouco historiografado da terra do pau-brasil, o tupi-guarani era o idioma mais falado, inclusive pelo colonos portugueses. Osmar Prado, Beatriz Segall, Caco Ciocler e Simone Spoladore dão um show de interpretação. Está no Youtube.


Curiosidades eletivas

O prefeito mais velho eleito em 2016 é o vovô Josibias Darcy de Castro Cavalcanti (PSD), com 88 anos. Eleito para comandar Catende (PE) pela terceira vez, retorna depois de um longo inverno no executivo municipal. As outras duas vezes que esteve prefeito foi nas décadas de 60 e 70. Será que vai tentar a reeleição?

O mais novo tem apenas 21 anos, a idade mínima para se candidatar ao cargo. Leonardo José Caldas Lima (PRB), é o jovem com a caneta em Milagres do Maranhão (MA). Eleito pela coligação “Unidos com o povo, venceremos e continuaremos de novo” não deixa a menor dúvida que vem que vem com tudo para uma reeleição.

Ainda sobre reeleição, as mulheres tiveram um grande crescimento. Em 2012, 37 foram reeleitas. Em 2016, o número pulou para 159. Outro fato curioso favorável ao gênero feminino: em 24 cidades, são maioria na Câmara. Para ficar tudo cor-de-rosa, elas também cresceram nas capitais. Passando de 103 vereadoras eleitas, em 2012, para 107, em 2016.

Nunca antes na história do Brasil houve um número tão grande de votos brancos e nulos, deixando claro que os eleitores estão pouco felizes, para não dizer algo mais forte. Anularam o voto: 10,23%. Os que resolveram votar em branco foram 3,48%. Quase 14% da população não quis saber de escolher candidato.

Em 3 municípios, os números são terríveis quando o assunto é voto nulo. Em Torixoréu (MT), Pontalinda (SP) e Iramaia (BA) superaram os 90% de nulos. Respectivamente, os índices exatos são 98,80%, 98,31% e 93,61%. A luz de alerta está piscando freneticamente para o universo político.


No Piauí

Esquecendo um pouco a eleição, vamos direto às posses. Em Piripiri, Luiz Cavalcante e Menezes (PMDB) é penta. O médico, que também foi deputado estadual, tomou posse para o seu quinto mandato, aos 68 anos. A primeira eleição para comandar sua cidade natal foi em 1983. Curiosamente, nasceu no mesmo dia em que é celebrada a emancipação política do município, 4 de julho. Tomou posse falando em inovação.

Mão Santa ou Francisco de Assis de Moraes Souza (Solidariedade), 74 anos, volta ao comando de Parnaíba, onde esteve prefeito pela primeira vez em 1989. Mas começou sua carreira política em 1978, elegendo-se deputado estadual pela Arena. Para quem governou o Piauí por duas vezes e foi senador, é um recomeço bem humilde, franciscano. Mão Santa não conseguiu entrar na prefeitura ao tomar posse. As portas estavam trancadas.

Em Teresina, o prefeito Firmino Soares da Silveira Filho (PSDB), 53 anos, emplaca o quarto mandato na capital mafrense, 1996, 2000, 2012 and now. É tetra! É tetra! É tetra! Entre os dois primeiros mandatos e os dois últimos como prefeito, foi vereador e deputado estadual.

Tomou posse falando em crise. Corte de gastos foi a palavra-chave de seu discurso na cerimônia de investidura ao cargo. No dia seguinte, empossou 29 secretários ou com status de secretário.

No primeiro escalão, apenas duas mulheres, menos de 10% do total. Para ser exato, regra de três simples: 6,89%. A advogada Geórgia Nunes assumiu a Procuradoria Geral. Na Coordenadoria de Políticas Públicas para Mulheres, Marcilene Batista. Aí também seria demais se não fosse uma mulher, né?!

Firmino falou que vai arrumar a casa. Ué?! Mas a casa já não está com ele? Parece discurso de opositor que ganhou de um adversário bem desorganizado. Disse ainda que quer economizar 62 milhões como meta para este ano. Para isso, vai cortar 20% dos cargos comissionados. Economista, professor de economia da UFPI, disso ele entende. Agora vai!


* Willian Tito é jornalista e publicitário. Texto inédito, escrito especialmente para o Artigos&Crônicas do Bancada Brasil.

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