Recentemente, em Teresina, mais um agressor de mulher debochou da Lei (e da sociedade) brasileira, usando no facebook a expressão: "Livre, leve e solto". Há nesse deboche uma “ação social” (WEBER, 1864-1920) – aquela que é orientada ao alter (ou outro) – cuja intenção racional do agressor se dá em função da certeza da impunidade. Dizer "Livre, leve e solto" tem um objetivo racionalmente definido, onde o agressor busca atingir um resultado – debochar da lei e ferir as mulheres – e, para isso, utiliza as redes sociais.

O deboche feito à Lei brasileira é uma forma de desrespeito à ordem jurídica, de descredito à legitimidade e uma ofensa gravíssima ao Estado de direito. Não se trata, portanto, de um comportamento desinteressado, cego ou fortuito de um agressor de mulher, mas a negação das relações entre Estado e cidadãos e dos cidadãos entre si.

Dizer-se “livre, leve e solto” em rede social depois de espancar uma mulher, ser preso e solto, é um modo de menosprezo para ridicularizar os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana, além de se constituir numa violação aos direitos humanos, que pode implicar em incentivo para que outros homens a pratique.

Se mostrar "livre” representa o ideário de se autogovernar, de ser independente e autônomo. Se sentir “Leve” é se apresentar sem culpas, sem remorsos ou dívidas. E estar “solto", depois de espancar uma mulher, é parte da crença de que a lei não é para todos, não tem uma força inibitória nem é cega, mas cínica. Aquele homem sorriu da lei porque sabe que, no Estado brasileiro, ela é seletiva. O deboche é uma ressignificação da deusa Têmis: a venda nos olhos não evita privilégios, a balança não dá o que merece a cada uma das partes e a espada não defende os valores do que é justo.

Para o sociólogo clássico Max Weber, a ação social pode ser dividida em quatro ações fundamentais: 1) ação social racional com relação a fins, 2) ação social racional com relação a valores, 3) ação social afetiva e 4) ação social tradicional. Todas as ações sociais se efetivam através de relações sociais.

Considerando que, o conceito de “ação social” se baseia no processo comunicativo entre sujeitos, a ação social do homem que sorriu da Lei nas redes sociais foi racional com relação a fins. Ele agiu intencionalmente, mesmo sem medir as consequências, utilizando-se do deboche para mostrar que em terra de machistas, até a lei é macho.

O agressor sabia da gravidade do seu ato e mesmo assim debochou da Lei (e da sociedade), pois uma “ação social” no sentido weberiano se constitui numa ação a partir da intenção de seu autor quanto à resposta que espera de seu interlocutor. O agressor foi preso, por força da Lei, e, após pagar fiança, foi posto em liberdade, por folga da Lei, depois de agredir uma mulher com um facão, efetuando cortes no punho, no braço, no pescoço e lesões no rosto. Para a lei, esse tipo de violência não é gravíssimo, intencional e reprovável?

No processo de comunicação e de interação social com os internautas, o agressor deu o sentido de inutilidade à função do Judiciário, onde o objetivo do autor da ação era vangloriar a liberdade por ter agredido uma mulher no país e está impune. Trata-se, portanto, de um elogio à “lei de machos” pusilânimes e, também, outra forma de humilhar e ultrajar a vítima por ter decidiu terminar uma relação abusiva com o agressor.

Portanto, publicizar a expressão "Livre, leve e solto" em redes sociais, após agredir violentamente uma mulher, é admitir que a Lei do país é débil e vil.


Arnaldo Eugênio é Dr. em Antropologia.

Dê sua opinião: