O caso ursa Marsha ganhou o Brasil e o mundo. Depois de uma campanha arrasadora nas redes sociais e a cobertura espetacular da imprensa piauiense, os grandes veículos da mídia tradicional brasileira embarcaram e mostram como se deu o andamento até culminar com a decisão do juiz, Frederico Botelho de Barros Viana, da 4ª Vara Federal Cível da SJDF.

A Ação Popular de autoria da jornalista e ativista piauiense, Carolina Mourão Albuquerque, com o trabalho do advogado, José da Silva Moura Neto, também contou com documentação colhida durante anos de luta da professora, jornalista e advogada, Juliana Castelo Branco Paz. A advogada vem há mais de dois anos mostrando através de relatórios da Coordenadoria do Núcleo de Defesa dos Direitos dos Animais, que compõe a Comissão de Defesa do Meio Ambiente da OAB-PI, que apoia a causa.

A peça jurídica contou com o laudo técnico do biólogo há mais de 25 anos, Frank Alarcón, PhD em Bioética, de renome internacional. Um vídeo postado pelo ativista, Alexandre Valente, deslanchou a campanha através do Youtube e conta com mais de 20 mil visualizações.

A vitória na Justiça Federal abre jurisprudência para muitos outros casos de animais exóticos mantidos cativos em situação degradante iguais e até piores que o da Marsha. É uma grande vitória da sociedade, dos ativistas e de todos os que lutam em defesa do Direito dos Animais.

Decisão judicial em favor da ursa Marsha


Marsha, a saga

A ursa Marsha chegou ao Brasil ainda filhote oriunda da Sibéria, Rússia. É difícil precisar a data e a idade dela. O primeiro registro na crônica jornalística é de 1996, na Folha de São Paulo. Vítima do tráfico internacional de animais, prática ainda muito difundida em todo o mundo, Marsha entrou no país para ser atração do Circo Vostok. Além dela, outros três vieram: duas fêmeas, Kátia e Ira; e um macho, Misha.

Os quatro ursos foram resgatados em operação realizada pelo Ibama no interior do Pará, no início de agosto de 2011. Foi na cidade de Quatipuru que a fiscalização os encontrou em péssimo estado. Amontoados em uma pequena jaula, passavam o dia todo dentro de um carreta baú, de propriedade de outro circo, o D’Itália. Só saíam para apresentarem-se no picadeiro e retornavam. Em troca, ganhavam alimentação. Marsha foi adestrada para andar de bicicleta, skate e se equilibrar em uma bola gigante.

Reprodução do Instagram da ursa Marsha

Após o resgate do Ibama, os quatro ursos tiveram destinos diferentes. Kátia foi levada ao Zoo de São Francisco do Canindé, interior do Ceará. Maska, seu nome verdadeiro, juntamente com Misha e Ira vieram para o Zoobotânico de Teresina, capital do Piauí. Ira e Misha morreram no cativeiro. Maska, finalmente, aguarda sua transferência, que deve acontecer nos próximos dias, para um Santuário no interior de São Paulo, onde finalmente vai deixar de ser uma atração para exploração de bilheteria. 

Só de Brasil, Marsha tem 21 anos. Considerando que ela veio filhote, sua idade não deve ultrapassar os 25 anos de idade. Bem menos do que apontam seus atuais cuidadores, que divulgam que ela é muito idosa.


Em cativeiro, há registros de que a espécie Arctos, ou ursos pardos iguais a Maska, conseguem viver até 47 anos. Portanto, mesmo com os maus-tratos que sofrera até hoje, Maska ainda vai poder ter uma vida mais amena e longa, distante da crueldade humana e sendo tratada com muito carinho.

Os ursos Arctos ocorrem na região do globo acima do Trópico de Câncer, onde as temperaturas nas estepes e pradarias, seu habitat, variam de temperado a muito frio, podendo atingir até menos 50 graus. A espessa pelagem de Maska é excelente para enfrentar as baixas temperaturas, mas no Piauí, onde no período mais quente os termômetros superam facilmente os 40 graus, é um tormento diário. Até os sertanejos, aclimatados com o semi-árido, queixam-se do calor, que muitas vezes é insuportável.


Ativismo nas redes sociais

A social media foi definitiva para o sucesso da campanha em prol da ursa Marsha. A participação em massa dos piauienses, brasileiros e demais simpatizantes da causa espalhados nos cinco continentes apontam um verdadeiro estouro. Viralizou.

A petição online no site Avaaz, que promove o ativismo digital em várias frentes, atingiu cerca de 230 mil assinaturas até agora e continua ativa e crescendo. Postada em 29 de setembro, tem mais de 40 mil compartilhamentos no Facebook, que foi a rede social de maior distribuição da campanha. O Twitter vem em seguida com quase 3 mil mensagens compartilhadas. Através de email, são mais de 3.200 enviados em apoio à causa.

O debate sobre o tema tem dezenas de milhares de mensagens específicas sobre o assunto. Os envolvidos diretamente na ação protagonizaram vários momentos de aguerrida defesa de suas posições. O apoiamento popular levou vantagem incomparável em defesa da saída da ursa Marsha do Zoobotânico de Teresina. Logo as autoridades perceberam que era um desgaste maior entrar em defesa de que a ursa permanecesse em terras mafrenses e abandonaram o palco de luta. Após a decisão judicial, a ursa Marsha ganhou perfil no Instagram, onde ‘conta’ sua história e vai atualizando seus seguidores sobre o passo a passo que vai levá-la à sua nova casa.

Repercussão nacional

Na noite de hoje, 12, os programas Fantástico, Rede Globo, e Domingo Espetacular, Rede Record, vão apresentar grandes e aprofundadas matérias sobre o caso. O horário nobre do domingo abre um grande portal para um debate impulsionado pela força popular nas redes sociais.

O interesse das grandes emissoras reflete o que sua audiência pautou ao longo de pouco mais de um mês de campanha. Embora o aquecimento tenha se dado a partir de 19 de outubro, quando os ativistas entraram com mais força nas redes sociais.

Foto: Moura Alves - jornal O Dia

Antropocentrismo retrógrado

O caso ursa Marsha traz à tona um debate bem mais profundo. A comunidade mundial, que luta em defesa do Direito dos Animais, está em batalha para mudar o vetor de uma mentalidade cruel e retrógrada. Manter animais selvagens em cativeiro em Zoos e Aquários não é mais uma prática que condiga com uma sociedade tão avançada na tecnologia, mas que ainda dá seus primeiros passos para tratar todos os viventes com igualdade.

O ser humano, que coloca-se no centro de tudo, insiste em achar que tem o direito de caçar e pescar “por esporte”, capturar, aprisionar e manter em cativeiro espécies selvagens para o seu deleite pessoal ou para exploração de bilheteria. Um sadismo que traz em sua crosta nefasta um grande desserviço à educação ambiental. Com a aura de que é normal, as gerações vão se perpetuando em olhar e manter espécies sujeitas ao antropocentrismo bolorento e desalinhado com a contemporaneidade. Não é normal. É cruel. Muito cruel.

A prática é totalmente sem sentido e não encontra amparo lógico. Atualmente, locais que abrigam animais só devem existir com propósitos claros de proteção e estudo de espécies ameaçadas de extinção, até que seus habitats, que podem ter sofrido degradação, sejam recuperados e, em seguida, possam retornar a eles.

Os santuários são o caminho para que animais vítimas de cárcere domésticos, exploração em circos, atropelamentos, queimadas em parques e outras situações de vulnerabilidade possam acolher e os que ainda podem ser reintroduzidos na natureza selvagem, ganhem seu lugar e exerçam sua liberdade. Isso não é nenhuma novidade. A Costa Rica, país da América Central, já age assim há mais de 3 anos. Fechou todos os zoológicos, transformou em parques, libertou os animais que puderam ser reintroduzidos na vida selvagem e realocou os demais para santuários.

Um mundo onde o altruísmo, a compaixão, a gentileza, a ternura e caridade sejam a tônica é o que todos desejamos. Mas só podemos construí-lo se ampliarmos a visão para além de nossos umbigos. A defesa dos animais, seus habitats e sua preservação é uma luta em prol de nossa própria preservação. À medida que encolhemos o espaço deles, degradamos os biomas e os aprisionamos, estamos nós mesmo nos vitimando em um futuro próximo. É preciso pensar nisso. É preciso agir sobre isso. Um mundo melhor para todos é o que queremos. Zoo, lógico que o melhor é ser livre. É ou não é?


* Willian Tito é jornalista e publicitário

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