A democracia está declinando no mundo. Conclusões do relatório Freedom in the Word 2019, que acaba de ser divulgado pela Freedoom House, organização independente, sem fins lucrativos, que anualmente publica estudo sobre a situação da democracia no planeta, revelam sua queda globalmente. No ano passado, 68 países retrocederam no quesito da liberdade enquanto apenas 50 apresentaram melhorias no índice.

Não foi surpresa para quem acompanha os estudos sobre o tema. Há 13 anos consecutivos apontam para seu retrocesso em matéria de direitos civis e liberdades políticas. longe o tempo em que a democracia era dado adquirido no mundo, pelo menos nas sociedades ocidentais. Enquanto a economia crescia, as pessoas a confiavam mais nas vantagens do sistema, sobretudo quando controlado por partidos mais moderados, sem ameaças consistentes dos populismos.

Embora alguns afirmem que populismos são inerentes às democracia sociais, o fato é que esses movimentos começaram a brotar e se organizar como resposta às iniquidades do capitalismo selvagem e da globalização descontrolada nas últimas duas décadas. Na origem, a ganância das elites. Talvez a resposta irada dos que sofreram e sofrem seus malefícios não tivesse chegado ao estágio atual se a sociedade e as empresas tivessem sido mais justas com as camadas da população que sempre pagam a conta dos seus desacertos.

Para agravar a situação, na última década as lideranças políticas nos diversos países europeus escolheram o caminho da austeridade para enfrentar suas crises econômicas. Na maioria dos que compõem a União Européia, como Portugal, tirar dos mais pobres para resolver problemas causados pelos mais ricos, foi a estratégia adotada por seus governantes. O remédio acabou matando alguns doentes. Portugal é um bom exemplo dos efeitos da posologia.

Depois de anos da austeridade imposta pela Troika (cooperação do Banco Central Europeu, do FMI e da Comissão Européia) e aplicada pelo então governo da direita de Passos Coelho, a economia de Portugal desceu ladeira abaixo, provocando mais crise e o aumento da pobreza.As conseqüências da fórmula elegeram o governo socialista de Antonio Costa, sem nenhuma semelhança com o modelo bolivariano da Venezuela. Composto pelos partidos socialista, comunista e Bloco de Esquerda, a chamada “geringonça”, o novo governo não mediu esforços para adotar alternativas para a austeridade .

Foram outras as estratégias aplicadas pelos socialistas portugueses para equacionar os problemas gerados pela austeridade. Ainda existe pobreza e desemprego no país, mas sua taxa caiu de 16,3 % em 2011 para os atuais 6,8% e continua a descer de forma mais rápida do que a média da UE. A diferença de fundo consistiu no olhar de compaixão lançado sobre os mais desfavorecidos pelo novo governo, que não mediu esforços para minorar seu sofrimento e alavancar a economia.

É importante destacar que Portugal é o único país da UE onde não existe partidos de extrema-direita, e os comunistas e esquerdistas são civilizados. Poucos acreditavam que a Geringonça pudesse funcionar, mas deu certo e o Primeiro Ministro Antonio Costa vai ganhar as próximas eleições legislativas ,não sendo improvável a conquista da maioria absoluta. Enquanto isso, os partidos conservadores portugueses limitam-se a criticar alguns desacertos da sua administração, existentes em todas, para atacá-lo, mas sem grande repercussão.

Paralelamente, a três meses das eleições européias, que podem alterar de forma preocupante a composição do Parlamento Europeu, o assédio à democracia preocupa. Em 2000, a média de voto populista na Europa era de 8,5%. Já em 2017, o percentual subiu para 24,1%. Análise publicada pelo The Guardian revela que os movimentos direitistas praticamente triplicaram nas duas últimas décadas em 31 dos países europeus. Em 17 deles, os nacionalistas e populistas estão organizados em partidos com representação parlamentar.

Na Espanha, outro baluarte do socialismo democrata, o Primeiro Ministro Pedro Sanches, do PSOE, deve perder o cargo nas eleições do final de abril, abrindo portas para o pior da política espanhola. Semana passada, o pais tremeu com a enorme manifestação da direita, com algum resquício da Falange franquista. E vai continuar sob tensão por causa do julgamento em curso do líderes independentistas da Catalunha, acusados de traição sob pena de condenação de até 25 anos de cadeia. Tese questionável perante o eterno confronto entre a consciência e a lei.

Acrescenta preocupação extra o fato de o xereta do Steve Bannon, que já se intrometeu no Brasil, escolhendo para líder da direita na America Latina o número 03 da família Bolsonaro, organizar a Universidade do Instituto Dignitatis Humanae (DHI), presidido pelo britânico Benjamin Harnwell. Com 350 vagas para estudantes, a academia nacionalista vai funcionar na magnífica Abadia de Trisulti, para formar “a nova classe dirigente da extrema-direita européia”. Certamente será o berço de novos Matteos Salvini e Victors Orbáns.

Catalogada como monumento nacional, a Abadia de Trisulti fica a100 quilômetros de Roma, constituindo mais um problema para o Papa Francisco, já às voltas com a reação dos bolsonaristas ao Sínodo do Amazônia. Há muito dinheiro para a nova entidade, proveniente de doações anônimas, enquanto Steve Bannon aparece como único doador. Portanto, não será de estranhar a instalação de algo parecido no Brasil onde o terreno é fértil para tais iniciativas. É preciso cuidar melhor da democracia.


Originalmente publicado no Diário do Poder.

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