Dia desses, por acaso, recordei a pitoresca notícia envolvendo a prisão de Faceiro – até onde entendi, por suspeita de crime de dano. Segundo consta, o dito cujo teria danificado um veículo… a coice! Sim, trata-se de um cavalo.

Seu dono explicou que, após uma vaquejada, algumas pessoas pediram para dar uma volta com o Faceiro. “Não vi problema em emprestar. Um rapaz saiu para dar uma volta e o cavalo se assustou e deu um coice”, que atingiu um veículo.

“Em seguida”, acrescentou, “um policial pegou o cavalo e o levou para a delegacia. Quando eu cheguei ele estava em uma cela, como se fosse um marginal. Estava sem comida, sem água e em um espaço onde não podia se mexer. A noite eu levei comida, mas na segunda de manhã não me deixaram alimentá-lo”. Concluiu declarando que irá ressarcir o dano causado.

Pedi a opinião de um amigo, que trabalha com funilaria, sobre a quanto montaria o dano. Chegamos a um valor médio de R$ 500. Mas sejamos rigorosos, e dupliquemos este valor – que seja de R$ 1.000 o prejuízo. Foi por conta deste valor que Faceiro passou a noite preso em uma cela.

Li que o Brasil perde, a cada ano, nada menos que R$ 82 bilhões por conta da corrupção – ou 82 milhões de vezes o prejuízo causado pelo intrépido Faceiro. Por conta do que fez, este impetuoso equino acabou em uma prisão. Enquanto isso, o Secretário de Cooperação Internacional da Procuradoria-Geral da República declarou que “se você comparar os números de êxito em ações contra a corrupção nos últimos 30 anos, vai ver que elas resultaram em nada em termos de punição de qualquer tipo, por mais provas que houvesse. E também resultaram em nada em termos de recuperação de dinheiro desviado”.

Faceiro, pobre que é, não teve direito à preservação de sua imagem: foi filmado e fotografado à vontade dentro da delegacia – assim como milhões de criminosos pertencentes às camadas mais baixas da população, invariavelmente “apresentados ao público” em constrangedoras – e ilegais – “cerimônias”. Em contraste, não me recordo de vexame similar imposto aos refinados – e poucos – cavalheiros surpreendidos assaltando o erário. Estes tem todos os seus direitos religiosamente respeitados.

Console-se, Faceiro! Naquela cela que o acolheu não foi enterrada somente a sua dignidade – a do nosso país foi junto…


Pedro Valls Feu Rosa é desembargador do Tribunal de Justiça do Espírito Santo. 

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