A piauiense Carolina Mourão Albuquerque vem ganhando notoriedade em seu estado com uma luta que torna-se emblemática em todo o Brasil. O caso da ursa Marsha, que vive em cativeiro no Zoobotânico de Teresina, capital do Piauí, deflagrou uma luta com mobilização nacional de ativistas e simpatizantes dos Direitos dos Animais.

Embora tenha realizado outras ações em prol dos animais no estado, só agora a comunidade piauiense conhece melhor a ilustre filha, que está radicada na capital federal. Carol vem dedicando há anos a sua vida para uma causa justa e nobre. Em nível nacional, tornou-se um ícone, um símbolo que inspira e motiva os envolvidos com o tema.

O espírito aguerrido, próprio de quem milita na área, é tecido fino de berço mafrense da melhor cepa. Com família oriunda da cidade de Pedro II, Carolina carrega no nome uma das descendências mais respeitadas no Piauí, com personagens que realçam a vida e a história dos seus conterrâneos secularmente. 

O Solar da Estrela Marrom, destaque do casario pedrossegundense, guarda tesouros muito caros aos Mourão, mas também enriquece o patrimônio arquitetônico da cidade, que pertenceu ao patriarca da família, Domingos Mourão, que dá nome a município desmembrado de Pedro II. A ligação com o segundo imperador brasileiro parece incrustar nobreza e coroa a trajetória familiar com cores várias, tal qual uma gema da rara opala.


No sangue

Carolina nasceu protetora dos animais. Uma história alegórica marca a vida e remexe com suas raízes mais profundas. Ainda criança, com pouco mais de 8 anos, protagonizou um episódio que serve-lhe de referência e renovação.

Ao tomar conhecimento de que um bezerro seria abatido devido a má formação de um dos membros, interveio pelo desvalido fadado à sentença capital. Ganhou tempo com o executor da pena enquanto buscava pelo avô, José Lourenço. Pelo telefone, advogou em defesa do condenado e convenceu com seus argumentos para que a vida da pequena rês fosse poupada.

O animal ganhou sobrevida e tratamento diferenciado, sendo apartado da manada. Em sua curta vida, dificultada pelas imperfeições físicas, recebeu carinho e alimentação. O vitelo que escapou da morte pela atitude audaz de uma menina é mais que um símbolo. Era sua primeira manifestação em defesa do Direito dos Animais, mesmo que naquela época não tivesse a clareza do que fazia por compaixão aos vulneráveis.

A história tornou-se tônica no curso de sua existência, inspirando um exército cada vez mais crescente em todo o país. Com a verdade de quem não escolheu o que seria, mas apenas deu vazão à sua natureza obstinada, Carolina tem conquistado com seu magnetismo muitos outros soldados à causa justa e necessária.


A jornalista

A mafrense, que honra a família Mourão, escolheu como ofício o jornalismo. Com escrita fácil, desenvolve a linguagem no papel com precisão. Distanciada dos veículos de comunicação, presta assessoria parlamentar como atividade profissional.

Mas a pena está sempre em dia com a escolha de sua vida. Nas redes sociais, vai traçando por linhas certas suas denúncias e ilustrando as muitas histórias de maus-tratos aos animais que carecem de defesa. Contundente, sensibiliza os militantes de norte a sul do país com posts no facebook, aparentemente despretensiosos, mas que em poucos minutos arresta apoio em rede de milhares de seguidores para ações que precisam de atos de bravura, virtude que não lhe falta.

Outro episódio curioso no seio de sua família também traz uma aura pertinente a causa dos animais e funde-se com o jornalismo. Ao resgatar a história de um momento que está guardado na memória dos pedrossegundenses, demonstrou a riqueza dos guardiões que cultivam a intimidade com o vernáculo.

“O Fantasma do Sertão”, registrada no portal Eco, revela um pouco mais de sua carreira profissional. A narrativa empolgante da captura de uma pantera negra na Suíca piauiense, que se alimentou dos animais de diversos moradores, denota o estilo colorido, permeado da linguagem local. Está neste link para o deleite dos que apreciam uma crônica bem desenvolvida.

A política

Do tempo dos coronéis, dos chefes políticos que mantinham seus eleitores em rédea curta nos sertões nordestinos, Carolina também carrega em suas artérias o fluído familiar da política vivaz, construída no traquejo corpo a corpo, olho no olho e na formação do convencimento das palavras bem colocadas.

Também é característica sua o dom do diálogo. Diferentemente dos tempos antigos, sua forma de fazer política é horizontalizada. Tratando os adversários com fidalguia, urbanidade e hombridade, conquista seus interlocutores mais contumazes nas diferenças com a capacidade ímpar de argumentação, forjada com conhecimento técnico e a vivência de quem milita também na linha de frente.

Os debates mais acalourados que tem protagonizado nas audiências públicas, comissões e subcomissões relacionadas ao meio ambiente na Câmara Federal, forneceram-lhe know-how, capacitando-a a figurar entre os parlamentares.

Em sua primeira incursão como candidata a cargo público legislativo em Brasília, obteve um desempenho surpreendente para quem saiu sem apoios notáveis, a não ser da militância aguerrida de uma causa que dá seus primeiros passos.

Os milhares de votos não a levaram ao parlamento, ainda, mas traz sinais claros que sua luta incessante, semeando incansavelmente a atitude perseverante de suas bandeiras, vão levá-la aos louros da vitória. A arregimentação de simpatizantes é crescente e a fidelização do voto de quem se dedica à causa é incontestável.


Os revezes

A judicialização de quem milita em favor dos animais é comum. Seja pela defesa dos oprimidos ou em consequência das insatisfações dos alvejados pelas denúncias, as barras dos tribunais é lugar comum para qualquer militante.

Nas conversas animadas de bastidores de quem atua no setor, é comum a expressão com ar de anedota nos momentos de trégua: “Militante de causa animal que não tem processo, não faz história”.

Momentos raros. Porque os guerreiros da luta animalista estão sempre em campanha, com agenda lotada para defender seus protegidos. Não falta serviço nem contrapontos dos que agridem os animais. São os mesmos que agridem as mulheres, que as ironizam, tentando menosprezá-las. Tentativas vãs, que Carolina simplesmente ignora e segue em sua caminhada com a mesma leveza, sem ser atingida pelas pequenezas do pior da natureza humana. 

Por este motivo, os adversários, muitas vezes covardemente, oportunistamente ousam desqualificar os militantes que frequentam os tribunais pelas consequências de suas batalhas. Quase sempre perdem no campo de luta. Sem munição para um enfrentamento nobre, apelam para a Justiça, que nem sempre pende para quem peleja com magnanimidade.


Altruísmo

Arrisco em afirmar que a matéria que constitui tão louvável piauiense é do mais fino tesouro, dos que enxergam o mundo por um prisma de bondade. Ao enfrentar os infelizes com atitudes malévolas contra os que não podem se defender, dá voz e braços a empunhar uma espada de benignidade.

A ânima da guerreira Carol dos Animais é firmada sobretudo na compaixão, na caridade, na generosidade, na ternura dos que defendem os punidos pela miséria do comportamento humano mais nefando. Todos os ataques que recebe, transforma em amor, que vai lucrando para ganhar força em suas novas investidas.

É um comportamento incomum nos dias de hoje, mais de tão assombroso poder que contagia a todos os que estão por perto com seu carisma, propagando a beleza de seus atos também nos que estão distantes. Assim, vai vencendo a distância imposta pela geografia, porque o altruísmo é viajor que está decantado no coração dos que buscam e defendem a pureza que ainda resta nesta planeta, multiplicando-o. Felizmente!


* Willian Tito é jornalista e publicitário

Dê sua opinião:


folder_openMais conteúdo sobre