O jornalismo criou medidas paliativas como “órgãos de verificação” e “agências de checagem”, que ditam o que é verdade e mentira na política, mas a imprensa não combate o lado mais perigoso das fake news: a sua própria perspectiva.

 Em geral, jornalistas se uniram nessas eleições para combater o que pode ser classificado como uma das maiores ameaças à democracia: as “fake news”. Mentiras e erros não são novidade, mas a complexidade do problema criou um monstro moderno, que dominou do noticiário às conversas de bar nos últimos meses.

Foram dezenas de iniciativas; de grupos de comunicação como o “Comprova”, da Bandeirantes, SBT, UOL etc ou o “Fato ou Fake”, dos veículos do grupo Globo, e outros como o “Aos Fatos” e a “Agência Lupa”, da Folha de S.Paulo, ambos associados ao Facebook para determinar o que é verdade na rede social.

Vale registrar aqui que a Folha de S.Paulo anunciou que deixaria o Facebook em fevereiro deste ano “após a redução da visibilidade do jornalismo profissional” na rede social, como anunciou o próprio jornal. Mas em maio, a Agência Lupa, do grupo Folha-Piauí, anunciou uma “grande parceria” para checar a postagens no Facebook. Dos outros.

Apesar das críticas e do óbvio cheirinho de censura por trás da “regulação” do jornalismo, esses grupos são iniciativas importantes, que sem dúvida visam proteger a profissão do jornalista e a liberdade do mercado de comunicação. Precisamos de veículos e grupos fortes, que garantam independência aos repórteres e que possam combater qualquer injustiça que venha ameaçar a liberdade de imprensa e expressão.

Mas são medidas paliativas. É apenas um pouco mais de jornalismo no jornalismo. Agências de verificação fazem o mesmo trabalho que redações fazem, com a exceção de que têm um carimbo que determina o que outros dizem são verdade ou mentira. Sem dúvidas isso é melhor que um órgão governamental de controle e é muito menos perigoso também. Mas é absolutamente necessário esclarecer o papel e – principalmente – o poder desses grupos. Até agora, há pouco conhecimento sobre como são definidos os “alvos” da checagem, por exemplo.

Nós, profissionais de comunicação, precisamos garantir à sociedade que o trabalho de apuração é bem-feito, que notícias publicadas nos diversos meios têm credibilidade e podem ser consumidas e compartilhadas com firmeza e segurança. A busca da verdade é intrínseca à profissão e os fatos devem ser relatados com precisão.

O fantasma do viés

Na maior parte, a margem de interpretação do jornalista é pequena. Não somos especialistas em todos os assuntos. Somos profissionais em relatar, de forma descomplicada, um fato relevante que merece atenção. Num caso de noticiário estatístico e econômico, essa lógica é fácil: a matemática precisa estar certa.  No caso de uma previsão ou interpretação, a fonte deve ser a mais capacitada possível para emitir opinião. É relativamente simples. Mas no jornalismo acerca da política existe o fantasma do próprio ponto de vista do repórter, editor ou grupo editorial. O tal viés político.

É natural que jornalistas busquem a “Razão” aristotélica ou “a verdade” no noticiário político, como dizem as agências de checagem. Somos treinados a separar o joio do trigo, fuçar mentiras, questionar absolutismos. Precisamos, por exemplo, ao noticiar um caso de latrocínio, utilizar dos termos jurídicos corretos, entender bem o papel do delegado, do promotor e do juiz. Se alguma dessas figuras não cumprir corretamente o seu papel, também é função do jornalista questionar a incompetência.

Mas na política a história é outra. O que são considerados “fatos” muitas vezes dependem da interpretação do repórter ou editor. E não é difícil demonstrar isso. O exemplo mais recente são as manchetes que as principais agências e veículos de notícias do mundo publicaram sobre Jair Bolsonaro: o presidente eleito é de “extrema direita”. (Veja abaixo)

Isso é factualmente incorreto. A extrema direita é reservada a poucos regimes políticos em atividade. Teocracias islâmicas, como o Irã por exemplo, onde o homossexualismo é ilegal – por lei – podem ser consideradas regimes de extrema direita. A direita radical pretende, por definição, segregar os diferentes grupos da sociedade através da legislação, concentrar o poder, a produção e agigantar o Estado.

Esquerda vs. Direita na comunicação

As agências Reuters e AFP, as maiores do mundo, replicadas por milhares de veículos em todo o planeta, chamam Jair Bolsonaro de candidato de “far-right”, extrema direita, nas manchetes sobre a eleição brasileira. Para a agência EFE ele é “ultradireitista”. É a mesma expressão utilizada pelo jornal espanhol El País, na Espanha. BBC, New York Times, The Guardian, TheIndependent, Times (Londres) também classificam o presidente eleito de “far-right” em suas respectivas edições locais.

No Brasil, no entanto, nenhum veículo grande, com credibilidade sólida como os demais veículos internacionais, se prestou a classificar a ideologia de Bolsonaro de “extrema direita” ou “direita radical”. Entre aqueles que noticiam para quem está perto dos fatos, o único veículo que menciona o “lado” de Bolsonaro nesta segunda (29) pós-eleição é o Valor, que classifica o candidato do PSL como o único presidente eleito na História do Brasil “claramente de direita”.

A solução encontrada pela maior parte dos veículos internacionais é publicar mais de um texto sobre um assunto. Por aqui, a tendência é a mesma. Existe espaço para contribuidores que são a favor de Bolsonaro, sim. Mesmo que sejam geralmente textos de opinião, ou blogs dentro dos seus sites, enquanto textos noticiosos têm outra tendência.

Mesmo assim, artigos e textos favoráveis ao novo presidente do Brasil não cometem a desfaçatez de classificar o PT como “extrema-esquerda”. Não é. Aliás, o termo “extrema esquerda”, ou “far-left”, raramente aparece em textos relacionados às notícias de Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte. “Far-left” não aparece sequer nos textos dos artigos da Wikipedia sobre o Khmer Rouge, na Camboja da década de 70; regime comunista, de extrema esquerda, responsável pela morte de 25% da população do país, em 4 anos, com o genocídio de toda e qualquer oposição ou resistência às ideologias de esquerda.

Do outro lado, Benito Mussolini, o pai do fascismo, era um clássico líder de extrema-direita: pretendia expandir o território nacional, prezava uma única raça e uma única religião em detrimento de qualquer outra, queria controle total dos meios de produção e comunicação, além da expansão de sindicatos e do estado e manutenção da mulher no papel exclusivo de mãe. Isso tudo antes da Segunda Guerra. Todos classificam o italiano como líder de extrema direita; na imprensa, na internet, nos protestos, na Wikipedia. Sequer é preciso dizer que o presidente eleito no Brasil não defende nenhum desses valores. Bolsonaro é o que a nomenclatura política moderna chama de “conservador”. Direita. Pura e simplesmente. Difícil é identificar nos meios de comunicação quando a ideologia de esquerda vai longe demais. Mas isso é assunto para outro artigo.

Essa definição “conservadora”, claro, envolve valores religiosos e um afastamento de políticas excessivamente assistenciais e demagógicas que podem assustar defensores da esquerda, mas está longe de ser um toque na campainha dos campos de concentração. A extrema direita não quer liberdade econômica e menos impostos, também não pretenderia manter (e nem mesmo sonharia em expandir) o Bolsa Família. Isso não é questão interpretativa, são fatos.

Até agora, nada dos órgãos verificadores.


Tiago de Vasconcelos é Diretor de Redação do Diário do Poder

Originalmente publicado no Diário do Poder.

Dê sua opinião: